16/12/2002

Ar Condicionado: Vilão escondido nos escritórios

Estudo mostra que um terço dos trabalhadores em locais climatizados queixa-se de desconforto.

Nariz coçando, garganta seca, olho irritado, desconforto geral. Quem quiser colocar a culpa no ar condicionado, pode fazê-lo com razão. Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) fizeram um diagnóstico dos eleitos do sistema de ventilação artificial sobre a saúde do trabalhador e confirmaram muitos dos sintomas atribuídos ao ar climatizados.

De acordo com o estudo, realizado em quatro prédios de escritórios no centro de São Paulo, um terço das pessoas que trabalham em ambiente com ar condicionado apresenta queixas relacionadas ao sistema. Sem manutenção periódica dos aparelhos e dutos, o ar dentro do edifício pode conter mais fungos e ácaros que o de fora, com risco de dez vezes maior de doenças respiratórias. E mesmo com manutenção, o ar condicionado causa uma série de desconfortos que reduzem o rendimento no trabalho.

"As queixas com ar condicionado são sempre maiores", diz o médico alergista Gustavo Silveira Graudenz, autor do estudo. À medida que o sistema envelhece, entretanto, os sistemas se tornam mais freqüentes. Segundo ele, a Organização Mundial de Saúde (OMS) aceita que até 20% das pessoas apresentem queixas com relação ao ambiente de trabalho. Nos escritórios em que os dutos de ventilação tinham mais de 20 anos, os pesquisadores registraram índices de 50%.

O trabalho envolveu 1.500 pessoas e contou com uma combinação privilegiada de ambiente, proporcionados pela reforma do sistema de ventilação de um dos edifícios: ar condicionado e dutos novos, ou ambos velhos com dutos novos. "Mesmo em locais como o Brasil, de clima tropical, as pessoas apresentam índices de queixas semelhantes aos de estados Unidos e Canadá, que possuem clima muito mais rigoroso" observa Graudenz.

Contaminação – O problema mais comum é a contaminação dos dutos de ventilação por ácaros e fungos – o chamado mofo. Seus esporos são carregados pelo ar e podem causar irritações nos olhos e trato respiratório. O resultado pode ser muito pior do que um simples incomodo. "Quando você vai passar para casa com o nariz entupido, sua estrutura de sono será perturbada", diz o pesquisador Paulo Saldiva, do Departamento de patologia da Faculdade de Medicina da USP. Consequentemente, isso pode levar a fadiga, mal-estar e um sistema imunológico comprometido, favorecendo infecções por bactérias oportunistas. "Sem falar das horas perdidas no trabalho e da má qualidade de vida das pessoas".

Quem mais sofre são os indivíduos com alergias respiratórias, mesmo nos casos em que não foram encontraram níveis altos de contaminação por fungos ou ácaros, afirma Graudenz. O objetivo da pesquisa nos edifícios era levantar hipóteses para serem testados no laboratório, o próximo passo. "Vamos dividir os grupos em alérgicos e não alérgicos e não alérgicos e submetê-los ao ar condicionado em ambientes controlado", explica Graudenz. O projeto é uma parceria da faculdade de Medicina com a Escola Politécnica e o Instituto de Ciências Biológicas, todos da USP.